A Libertadores é a maior competição do continente: fato. Conquistar a América não é só o objetivo das equipes que a disputam, vai além: é tópico prioritário no planejamento de qualquer instituição média/grande nas principais potências do futebol sul-americano.
Os times brasileiros ficam com o primeiro semestre completamente voltado para busca do título. Atlético-MG, Corinthians, Fluminense, Grêmio, Palmeiras e São Paulo: por acaso alguém cita em conversa a necessidade e o foco de conquistar o estadual? Não.
Não é muito diferente lá fora. O Boca Juniors por exemplo “ressuscitou” Carlos Bianchi e Riquelme com objetivo único de conquistar “la Copa”. Torcidas uruguaias, paraguaias, chilenas e por toda a América do Sul, gritam para quem quiser ouvir “la Copa Libertadores es mi obsesión”.
E ainda tem os mexicanos, convidados cada vez mais indigestos e bem distante para visitar, diga-se. E olha que cada ano que passa, aumentam os boatos sobre a participação dos times da MLS (Estados Unidos).
Antes da bola rolar, no sorteio, a Conmebol dá um show. A cerimônia se arrasta com a celebração das inúmeras parcerias comerciais da entidade. É banco, fabricante de pneu, bebida isotônica, montadora de carros e por aí vai. Dinheiro alto — e deve ser bem alto mesmo — que paga uma premiação até modesta para o campeão. Só como base, o campeão do Paulistão 2013 ganhará mais que o campeão da Libertadores.
Fica a pergunta: onde são aplicados tamanhos recursos? Ok, trata-se de uma instituição privada, muito bonita por sinal (quem já foi a sede sabe do que estou falando) e que teoricamente não deve satisfação ao torcedor. Mas se vende um produto para os patrocinadores, não deveria oferecer aos clubes, que afinal são os protagonistas, melhores condições, campos que ofereçam uma disputa esportiva justa e SEGURANÇA?
Os torcedores que pagam para ver o espetáculo ou que assistem pela televisão — e as emissoras pagam caro por isso — não merecem partidas em alto nível (pelo menos na teoria), organização correta e principalmente, que o foco seja futebol e os acontecimentos girem em torno disso?
Ontem no Independência, em BH, o Atlético enfiou 5×2 no Arsenal de Sarandí. Vamos tirar o clubismo de lado: foi uma sonora goleada, exibição de gala de Ronaldinho como pude ler nas críticas, uma campanha irretocável do time brasileiro e estádio cheio. Mais: o Corinthians foi até Bogotá, venceu fora de casa, reassumiu a ponta do grupo e se classificou para a fase seguinte. Mais: hoje o São Paulo joga em La Paz, partida decisiva e que pode / deve decidir o destino da equipe na Libertadores.
O que vemos nos noticiários, sites e provavelmente veremos nos jornais hoje? A equipe do Arsenal quebrando o pau com a PM mineira, escopetas apontadas aos atletas e a equipe argentina detida a noite inteira e nesta manhã em uma audiência emergencial, indiciada por lesão corporal e desacato.
Nos últimos meses, somando a final da Sul-Americana e a Libertadores podemos listar alguns eventos:
- São Paulo x Tigre interrompido no intervalo por confusão generalizada;
- Morte do garoto do Kevin Espada em Oruro;
- Torcedores de Peñarol e Velez Sarsfield em confronto no Centenário de Montevidéu;
- Tentativa de agressão ao árbitro no jogo do Atlético por parte dos jogadores do Arsenal e em La Bombonera no confronto Boca Juniors x Barcelona – EQU. Ainda no Atlético x Arsenal, conflito entre os atletas argentinos e a polícia, jornalista apanhando e vestiários trancados.
Campeonato nenhum no mundo tem uma lista de ocorrência tão vasta e com um passado ainda pior. Os conflitos partem dos jogadores, torcedores e até de dirigentes. Os “abusos” esportivos como disputar partidas em até 4 mil metros de altitude e campos sintéticos não são cessados. Até jogador preso por racismo já aconteceu.
Até quando isso será considerado o “charme” da competição? A partir do que exatamente a Conmebol irá tomar providências que “consertem” a Libertadores, devolvam a esportividade, a justiça e acima de tudo o espetáculo ao torcedor? Quem pune a confederação sul-americana por uma competição desastrosa?
A UEFA, e não é complexo de vira-lata, realiza anualmente uma conferência pela segurança em suas competições. Mais de 350 profissionais de federações, clubes, governos, segurança e polícia, envolvidos na conscientização, logística e organização de um evento. Os problemas que cá não ganham tanto espaço, na Europa aparecem de sobra: torcedores embriagados, manifestações racistas e frequente encontro nas estações de metrô e ônibus a caminho dos jogos.
Quantos conflitos houveram na Champions League e na Liga Europa nos últimos anos? Tente puxar na memória. Não dá para dizer que a mídia não divulga. Existe competência na organização.
A Conmebol tem como obrigação maior resolver a situação. Em primeiro lugar é preciso que acabe essa história da “velha catimba” argentina, uruguaia ou o raio que os parta. O jogo é jogado e não é porrada, mordida, peteleco e provocações psicológicas que farão o esporte melhor. Os atletas em sua maioria são muito bem remunerados. Na Argentina (principalmente) tem formação cultural próxima do adequado e já contam com uma força imensa da torcida. Mesmo nos grandes estádios, a pressão é enorme. Precisam ainda de mais artifícios? É difícil fazer uma campanha combatendo essas atitudes? Punição não rola?
Quando a segurança para o torcedor e arbitragem serão privadas? Ou se não forem privadas, quando haverá uma força policial especializada (pra valer) para esse tipo de evento? É notório que é preciso preparação para isso. Apontar uma escopeta para um jogador de futebol não me parece exatamente que o profissional em questão esteja preparado. E se dá um momento de loucura no argentino, o policial atira?
Até quando os confrontos entre argentinos x uruguaios (principalmente) serão verdadeiros campos de batalha? É complicado demais reprimir confrontos dentro de um estádio de futebol?
E acima de tudo: até quando as punições aos clubes serão financeiras e essas quantias serão embolsadas pela Conmebol?
Pois como reflexo da confusão de Oruro, o Corinthians jogou uma partida com portões fechados, está com a entrada de sua torcida proibida como visitante, 12 torcedores estão presos e até agora pouco se sabe se são realmente culpados, mas não esqueçam um detalhe:
200 mil dólares foram pagos para a Conmebol como punição. O Velez pagou mais 100 mil. Cartão amarelo custa 100 dinheiros americanos…
E o cofre enche, enche, enche…
E aí, Sr. Nicolás Leoz, o senhor que preside essa confederação desde 1986, não está afim de tomar umas providências e transformar a Libertadores em um campeonato decente e moralizado?
Por que o senhor e seus assessores não vão bater uma bolinha a 4.000 metros de altura? Ou quem sabe em um campo sintético?
Por que não viajam 14 horas para jogar uma partida de futebol voltam para seus países e jogam outra?
Por que não vão aos estádios sem segurança particular só por conta da polícia local?
Por que não visitam estádios e conferem se as revistas são realizadas com competência garantindo a segurança de quem frequenta os jogos?
A Conmebol é culpada por tudo? Não sei. Mas certamente é a responsável para que “tudo” não aconteça mais.
E assim caminha o futebol.


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