Era para ser uma estreia festiva mas não foi. O episódio acontecido no dia 20 de fevereiro em Oruro jamais será esquecido. Justiça sendo feita ou não, ficou, marcou e está gravado na memória de todos. O empate entre San José x Corinthians virou estatística na tabela da Libertadores.
Desde o momento do ocorrido, a polícia local já se mostrava atrapalhada. Identidades trocadas, idades ditas de forma equivocada e chegou-se a conclusão que a única informação confiável seria da Cruz Roja, uma espécie de SAMU local, que havia transportado o menino até o hospital. Nesse momento 5 torcedores (segundo a informação da polícia local – aproximadamente 23h – horário de Brasília) haviam sido presos.
Essa foto que tirei no dia anterior ao jogo mostra mais ou menos o tamanho da área destinada aos corinthianos e o local onde estava Kevin. Bem acima da bola pintada na parede, havia uma câmera posicionada por um torcedor corinthiano que não confirmou, talvez por receio, se ela gravava ou não, o movimento da torcida. Certo é que o cartão de memória ficou com a polícia e até agora não vimos nenhuma imagem publicada. Me parece conveniente.
Imagens geradas pela TV boliviana ou pela geradora internacional, sei lá eu, mostraram o momento do disparo e a análise dos peritos convidados do Fantástico concluiu que H.A.M, 17, seria o autor do disparo do sinalizador. Ainda na Bolívia, no dia seguinte, já se falava que a pessoa responsável teria voltado ao Brasil, informação também passada aos encarregados pela investigação pela imprensa local. Não ocorreu aos bolivianos fechar a fronteira? Se os 12 investigados e apontados como suspeitos por eles já estavam presos, que trabalho daria para a polícia de fronteira bloquear o ônibus e baseados em depoimentos, reter H.A.M. no país e ele, o suposto autor, responder pelo crime seja ele culposo, doloso ou de dolo eventual? Ao que me parece existem provas contra ele ao menos para uma investigação.
Não. O menino voltou, se apresentou aqui no Brasil e para ele, culpado ou não, ficou por isso mesmo.
Enquanto isso na Bolívia, a polícia escondia a identidade dos 12 presos e no dia seguinte em uma coletiva de imprensa apresentou os nomes e supostas imagens que incriminavam os suspeitos. Nos exames de perícia, encontraram pólvora na mão de dois deles. DOIS, não doze. Os dois que foram indiciados por homicídio – e já foi concluído em poucos dias o dolo, sem depoimentos adicionais – e mais 10, ficaram presos por serem cúmplices.
Pólvora que estava ali – segundo análise – porque os torcedores soltaram sinalizadores. Não necessariamente o que atingiu Kevin.
As imagens apresentadas, diga-se, eram da televisão e não tinham aproximação alguma. Só se via o sinalizador voando. O que se provava apenas, era que tinha saído da torcida do Corinthians.
Ainda na cadeia da delegacia de Oruro, a polícia mostrava o despreparo. Eu por exemplo, entrei até o local da cela sem revista alguma. Fiquei conversando com os detidos durante quase 45 minutos e em nenhum momento fui acompanhado por um policial. Ouvi a versão dos caras, que desde aquele momento se alegaram inocentes e depois saí sem dar explicação alguma para as autoridades locais. E isso tudo autorizado. Que se ressalte que em nenhum momento apresentei minha credencial de imprensa.
Nunca fui a uma cadeia no Brasil mas imagino que exista um procedimento mínimo antes de visitar um preso. Uma revista ao menos. É só mais uma prova do despreparo da polícia local.
Por que prenderam essas 12 pessoas? É bastante simples. Quem esteve no jogo e tem boa memória saberá. Quem viu fotos, também: eram esses os torcedores que formaram um pequeno aglomerado com os instrumentos. Parte deles tocava a percussão (por assim dizer) e outra parte deles puxava os gritos. Isso está registrado nas redes sociais pessoais e é confirmado por muitos dos presentes. Na falta de experiência da polícia local, imagino eu que concluíram que os homens da bateria, seriam líderes da torcida.
Por que em uma investigação criminal não foram tomados depoimentos? 12 pessoas são indiciadas sem nenhuma testemunha e sem depoimento algum? Mesmo?
Foi uma prisão em flagrante? O crime foi bater no bumbo e gritar Corinthians? Os brasileiros presentes são automaticamente excluídos da possibilidade de prestarem depoimento por simplesmente serem brasileiros e não bolivianos?
Quase 45 dias depois os doze torcedores continuam presos, em uma ordem preventiva da justiça de 6 meses e sabe-se lá até quando ficarão se não houver uma intervenção pra valer da diplomacia brasileira.
A presidência da nação vai esperar até quando para se manifestar? Até a eleição? Ficam doze cidadãos brasileiros presos e pelo fato de serem torcedores organizados, fica ruim para a popularidade dos políticos intervirem na situação? Deputado condenado cumprindo mandato pode?
Se não bastasse a sucessão de absurdos, a CBF sei lá por qual razão, inventou um amistoso póstumo e diga-se de passagem desnecessário em Santa Cruz de la Sierra, prejudicou as equipes e por consequência meteu o bedelho em uma situação que deveria ser sugerida ajuda (como foi) pelo Corinthians.
Corinthians, que procurou a família via diplomacia, e tardiamente ou não, ouviu da família Espada um sonoro não sobre qualquer ajuda que pudesse ser prestada.
A mesma família que dizem, chegou ao valor de 5 milhões (não sei se de dólares ou reais) para uma indenização pela morte de seu filho.
Indenização que não pode e não deve ser paga pelo clube. Não pode haver tal precedente. Cada um tem que ser responsável pelos atos e acima de tudo, a polícia local deve ser responsabilizada daqui pra frente por qualquer falha na revista dos torcedores.
Pois verdade seja dita, há quanto tempo não vemos (graças a Deus) uma morte dentro dos estádios aqui em São Paulo? Puxando muito na memória me lembro apenas do confronto entre as torcidas de São Paulo e Palmeiras no Pacaembu e a morte do garoto corinthiano na Copa SP vítima de uma bomba vinda da torcida sãopaulina. E põe pelo menos 20 anos nisso.
O clube também não pode (ou não deve) se posicionar como fez o presidente. Discordo de Mário Gobbi nesse aspecto. Ainda que 12 famílias estejam apreensivas com filhos presos, Kevin Espada era uma criança de 14 anos e MORREU. Isso não tem remédio.
Se existe um esforço geral para libertarem 12 supostos inocentes, deve haver um movimento igual ou maior para a prisão dos supostos culpados.
Pergunto:
- 12 torcedores, santinhos ou não e isso pouco importa, estão presos e já indiciados sem a análise do depoimento do menor e sem o testemunho de quem estava no local. Isso é certo?
- Quando veremos as imagens do cartão de memória da câmera retirada do corinthiano? Quando citarão tal fato?
- Até quando os torcedores presos e também os que não foram presos e até o time, serão chamados de assassinos nos estádios e as federações não punirão? Na Europa, preconceito dá punição. Ainda que não seja o caso de ofensas racistas, ninguém gosta de ouvir tais afirmações.
E o principal:
A partir de quando a memória de uma criança de 14 anos, morta ao assistir seu time do coração pela primeira vez, será honrada e preservada?
Não basta pedirmos justiça apenas libertando quem se acredita ser inocente. É preciso a mesma indignação para prender quem se acredita ser culpado.
E assim caminha a humanidade… pra trás.


Nenhum comentário:
Postar um comentário