Torcedores seguem em presídio aguardando julgamento pela morte do garoto Kevin Espada, de 14 anos, morto por um sinalizador
O dia 20 de fevereiro de 2013 mudou de forma irreversível a vida de uma família na Bolívia e de outras tantas no Brasil. A morte de Kevin Douglas Beltrán Espada, de 14 anos, deixou suas marcas na pequena cidade de Oruro e abriu uma reflexão em torno de alguns assuntos - a segurança nos estádios, a utilização de artefatos pirotécnicos em jogos de futebol, a lentidão da Justiça para analisar o caso.
A comoção inicial diminuiu, o espaço para o assunto também, mas as várias partes envolvidas continuam se mexendo nos bastidores do caso. Em uma frente, Corinthians e família de Kevin tentam se entender para que o clube consiga dar algum suporte aos parentes do morto - o pai do garoto, Limbert Beltrán, recusou qualquer tipo de ajuda vinda do Brasil. A promotora Abigail Saba, responsável pela acusação aos brasileiros, apoiou a postura.
- Faz um mês que o pobre menino morreu e nós continuamos investigando os fatos. Não vamos ficar achando que qualquer bondade vinda do Brasil vai amenizar o que esta família passou e está passando. Vamos continuar investigando de forma responsável, e farei de tudo para que esses torcedores continuem presos até que tudo seja esclarecido - afirmou Saba, em conversa com a reportagem do GLOBOESPORTE.COM, por telefone.
- Não podemos deixar que essa tragédia seja esquecida. Vejo poucas referências na própria imprensa boliviana. Foi um crime de repercussão nacional, talvez mundial – completou.
De outro lado, a defesa dos corintianos presos prepara um documento que, de acordo com advogados, será decisivo para os torcedores responderem em liberdade às acusações de homicídio. Há uma semana, a apelação que pedia a revisão da prisão preventiva foi negada pela Corte Superior de Justiça. Agora, só resta um caminho para que os torcedores tentem sair antes do prazo do fim das investigações, que é de seis meses.
- Vamos entrar com o pedido de reconsideração da prisão preventiva, mas não sabemos quando isso será possível. Por causa da exigência da mudança do nome do aeroporto (atualmente chamado Evo Morales, em homenagem ao presidente boliviano), os serviços em Oruro estão paralisados durante toda a semana. Então estamos de mãos atadas, não há o que fazer por enquanto - afirmou o advogado Miguel Blancourt, que faz a defesa dos corintianos.
Na reconsideração, Blancourt vai incluir todos os novos fatos ocorridos desde a decretação da prisão preventiva – a apelação não permitia a inclusão de novos elementos. O advogado tem em mãos três vídeos: a entrevista do menor H.A.M, de 17 anos, ao programa Fantástico, em que confessa ter sido o autor do disparo do sinalizador, outra reportagem do mesmo programa com peritos endossando a versão do menor, e um registro do garoto se entregando à Vara de Infância e Juventude de Guarulhos.
Além disso, Blancourt obteve toda a transcrição do depoimento do garoto à polícia e pretende arrolar novas testemunhas para depoimentos. O entrave é que muitos dos torcedores procurados foram aconselhados ou não querem depor, com medo de serem presos sem motivo aparente.
- A Justiça aqui funciona de uma forma muito peculiar, então todo o cuidado é necessário - avisou o advogado.
O Itamaraty se mobilizou para ajudar os presos, assim como diz fazer com os outros 100 a 120 brasileiros detidos na Bolívia. Pelo menos cinco representantes diferentes do órgão já estiveram em Oruro, casos do embaixador Marcel Fortuna Biato, do ministro conselheiro Eduardo Saboia e do cônsul Kaiser Araújo, que vai à cidade com maior frequência.
- Estou tentando transmitir a preocupação da Embaixada. Pedi às autoridades que fossem assegurados aos presos o direito de defesa, o devido processo legal e o respeito ao princípio da presunção de inocência. Também reiterei a disposição do Governo brasileiro de cooperar com as investigações para que o processo se conclua o mais rápido possível. Todos me asseguraram que o processo correrá estritamente de acordo com a lei boliviana - explicou Kaiser.
Há esperança, ainda que pequena, em conseguir a liberdade provisória dos corintianos com o pedido de reconsideração das acusações. A casa alugada em Cochabamba e paga pela Gaviões da Fiel está mantida para o caso de os brasileiros serem soltos. O imóvel é importante para que os brasileiros tenham residência fixa configurada na Bolívia, o que facilita o processo.
A maior probabilidade é que os 12 acusados fiquem enclausurados na Penitenciária de San Pedro por pelo menos mais cinco meses. Pela lei boliviana, a promotoria tem até seis meses para investigar o caso e apresentar o processo completo. Só depois disso é que o julgamento pode ser marcado. A falta de datas também preocupa, e pessoas da embaixada falam até em corrupção: uma sentença de liberação pode custar até US$ 15 mil.


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